São Paulo é um mural a céu aberto, onde escapamentos, fábricas e bocejos poluem o ar como sprays invisíveis. No céu cinza, a destruição já assinou seu nome.
Poluição é pichação feita no ar.
Argumento feito de base acrílica;
Ar gumento semibrilhante ou brilhante?
Não, só na base da tinta, todo tosco
e fosco de tanta fuligem.
E se tratando de poluição,
São Paulo é um muro a céu aberto,
exposição de arte particular e densa;
uma propriedade ‘particular’ que essa sim
vira ocupação aceita pelo capital
dentro de nosso sistema respiratório.
Aqui, ar sujo é Aerossol na Base Solvente –
e não sorvete de carbono;
refresco cinza composto químico,
ardente, all dente mal tratado me tártaro,
átomo de carbono e dois de oxigênio.
Ótima aderência a diversas superfícies,
ideal para murais e superfícies externas.
Acaba com acabamento na garganta
de quem nega os impactos climáticos;
e de quem não nega também sofre.
Essa obra humana afeta o paulistano,
que lacrimeja de tanta emoção.
Os dentes sorriem amarelos,
pintados como que com Spray Esmalte Sintético.
Nem adianta usar carão,
pois é resistente à água e ferrugem,
usado para superfícies metálicas
e objetos de longa duração.
Escapamentos, chaminés de fábricas,
nosso contagioso bocejo, até peido de porco;
é um poluidor querendo atropelar
o pixo do outro num céu sem mais espaço,
coberto de CO0².
Recomenda-se beber água: – Que!?
Spray de Tinta à Base de Água,
que opaca o brilho tóxico de nossas mentes,
ideal para ambientes internos
e superfícies sensíveis
através das mucosas de nossa alma?
Sente só o Spray Alta Pressão,
sente o desmaio do Spray de Baixa Pressão.
Os becos de concreto viram tela,
de um lado o Spray Cromo,
refletindo a prata dos olhos que se perdem,
do outro o Spray Fluorescente,
riscando neon na neblina do caos.
No chão, rastros de Spray Fosforescente,
brilham no escuro da madrugada poluída,
como se tentassem iluminar
o que ainda resta de horizonte.
Se há um céu cinza,
é porque o artista da destruição
já pegou seu Fat Cap
e assinou seu nome na camada de ozônio.
E no meio da fumaça, alguém empunha
um Calligraphy Cap,
tentando escrever resistência.
A paisagem suja segue sendo pintada,
o grafite atmosférico, inescapável.

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