I LOOK SP
Sorria para a câmera, SP está te vendo.
Vendo pra prender, vendo consciência.
Vendo pra punir, vendo pra aumentar audiência.
Sorria para a câmera, SP está te vendo.
Todas as lentes das ruas apontadas para nós.
E quem somos nós?
Somos nós os vigiados.
Somos nós os prendidos,
somos nós os rendidos,
somos nós os fodidos.
Somos nós os punidos.
E quem somos nós?
Somos nós os sem lar,
somos nós os sem lenço,
sem tempo, sem documento.
Somos nós sem direito,
sem canção, sem cultura ou tradição,
sem direito à nação, sem direito ao amor,
sem direito a tesão,
somos nós sob o olhar de tensão.
Olhos de lince do estado das coisas nos caçam:
Sem direito a sentir dor, só sentimos pavor.
Sem direito ao pão,
somos cão sem direito a migalhas.
Somos peças jogadas ao relento,
somos nós os detentos.
Somos nós os vigiados.
Captura corpo. Captura pele. Captura classe.
Captura raça. Captura sexo. Captura afeto.
Captura tudo. Captura o nada.
Captura mais capital para o capital da capital.
Olha o tombo da velha na calçada.
Olha só toda essa desgraça.
Olha só mais famélicos furtando o mercado.
Olha só quanta segurança disparada.
Punção-riso-morte.
Punção-riso-morte.
Punção-riso-morte.
Punção-riso-morte.
Câmera registra, poder julga.
Câmera grava, poder apaga.
Câmera escancara, narrativa nega.
Câmera existe, sistema deleta.
Olha o acidente: carro, moto, gente.
Olha o acidente: catástrofe, mortos, dementes.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Prazer-ação.
Luz, câmera, ação: Glauco nas retinas.
Luz, câmera, ação: celular, sangue, mãos.
Luz, câmera, ação: dados da vida no jogo das redes.
Olha o corpo do assaltante no chão.
Pega, pega, arregaça.
Olha a cor do corpo do assaltante no chão.
Pega, pega, amordaça.
Qual a cor do corpo do assaltante no chão?
Prende, tortura, mata.
Punição-tesão,
Punição-tesão.
Punição-tesão.
Eu me vi vigiado, vendo outro vigiado,
vigiando outro vigiado, que me viu vigiado,
vigiando quem me viu vigiando o vigia do vigiado,
vendo o outro vigiado, que nos viu vigiados,
se vendo vigiado, por outros viciados vigiados.
Olha, mãe, olha quanta câmera.
É pra sua segurança,
é nossa segurança.
Pra que tanta segurança?
Pra que tanto vigiado?
Eu que sou vigiado?
Por que fui vigiado?
Meu barraco vigiado?
Minhas compras vigiadas?
Minhas crias vigiadas?
Cada esquina vigiada.
Cada puta vigiada.
Cada preta vigiada.
Cada passo dado,
vigiado.
Cada pensamento,
vigiado.
Cada reação,
vigiado.
Vigiado por quê?
Vigiado de onde?
Vigiado por quem?
Pra que tanta lente,
se Deus é onisciente?
Obtura dor.
Obtura flor.
Obtura amor.
Obtura mente.
Nossa vida é acinzentada, nunca cinema.
Nossa vida é registrada, nunca documentário.
Nossa vida é acompanhada, nunca seriado.
Ver-a-cidade, Ver-a-cidade, Ver-a-cidade,
Ver-a-cidade, Ver-a-cidade, Ver-a-cidade.
Ver-a-cidade, Ver-a-cidade, Ver-a-cidade.
Sorria para a câmera,
SP está te vendo.
Sorria para a câmera,
SP está te vendo.
Sorria para a câmera,
SP está te vendo.
Vendo pra punir.
Vendo pra prender.
Vendo pra lucrar.
SP punir, prender, lucrar.
SP punir, prender, lucrar.
SP punir, prender, lucrar.

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