Os Sete Pretéritos de São Paulo: os fantasmas urbanos que sustentam o atraso da cidade.
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| Olhos que veem além do concreto. A arte urbana resiste entre os vãos da cidade, refletindo rostos que contam histórias de um São Paulo marginalizado. |
A cidade se ergue sobre seus próprios escombros, reciclando desigualdades e perpetuando seus pretéritos: os sete espectros da marginalização paulistana.
Inspirado no possível pesadelo que Neil Gaiman pode ter se tornado, apresento os Sete Pretéritos de São Paulo – arquétipos correlatos aos Perpétuos de Sandman. Mas aqui, não são entidades que regem a existência, e sim os pilares que sustentam o atraso e a opressão desta cidade.
Inspirado no possível pesadelo que Neil Gaiman pode ter se tornado, apresento os Sete Pretéritos de São Paulo – arquétipos correlatos aos Perpétuos de Sandman. Mas aqui, não são entidades que regem a existência, e sim os pilares que sustentam o atraso e a opressão desta cidade.
São Paulo alimenta-se de sua própria ruína, moldada pelo poder do Estado burguês, encontrando nesses seres seus demônios diários, sua repetição infinita de desigualdade.
Vamos aos 7 Pretéritos de São Paulo.
Pretérito 1°: Destroços
Os escombros do que foi antes. Destroços é o que resta do apagamento, da cidade erguida sobre a negação de sua própria história.
Cascalhos do projeto de concreto real, feitos para soterrar memórias negras, indígenas, periféricas. Histórias revisionadas para erguer prédios espelhados que refletem a vaidade da fragilidade neoliberal.
Destroços é o ser que pretérita São Paulo, território de terra indígena impermeabilizado por construções privadas para o público.
A cidade cresce sobre os escombros do que apaga. E, no lugar, ergue-se sobre ruínas que escolhe não lembrar.
Pretérito 2°: Despejos
Despejos não pede licença, entra como um mandado judicial – e às vezes, nem isso – e desaloja vidas com a frieza de um documento carimbado.
O inferno de ter mais prédio vazio de gente e cheio de especulação não é acaso, é projeto. Projeto de poucos em situação de lucro, projeto de muitos em situação de rua.
O olhar do pretérito Despejos não vê moradia, vê mercadoria.
Aluguel nas alturas, cubículos, casas-cativeiros, smart-apartments.
Despejos ocupa a mente do paulistano médio, que teme ser "invadido" enquanto sonha, delira, um dia, ser o burguês que vai viver da renda do proletariado na forma de aluguel.
Pretérito 3°: Descolore
O apagamento da cultura, da arte, do povo que a cidade finge que não existe.
A cidade cinza a vida de pichadores e grafiteiros que, com arestas em tipografia pontuda, denunciam as desgraças que preteritam a vida de quem não é herdeiro.
O pretérito Descolore pinta de sangue e tinta padrão o que não faz parte do seu critério de arte.
Privatiza casas de cultura para torná-las arremedos de coworking do Vale do Silício.
Expulsa artistas de rua para manter as calçadas limpas para turistas.
Criminaliza a arte marginal enquanto exalta a estética pasteurizada de quem pode pagar. É a clara expressão da São Paulo para inglês – e gringo – ver.
Curtir show, espetáculos, entretenimento, experiências?
Se depender do pretérito Descolore, pague para ver.
Descolore também detém. Detém minas, manos e monas que ousam tocar músicas “degeneradas”, que ressoam o batuque da favela, o eco do funk, rap, hip-hop.
"É som de preto? De favelado? Quando toca, ninguém fica parado."
A PM também não.
Os 11 de Paraisópolis pagaram com a vida, encurralados nos becos escuros da tortura pretérita que nunca chegou ao fim.
Descolore para apagar, mas o vermelho sempre insiste em ressurgir.
Pretérito 4°: Desemprego
O fantasma da fome, da fila do PAT que cresce mais rápido que o PIB.
Quilômetros de desesperados, desempregados e desalentados dão conta do peso desse pretérito econômico-social.
O exército industrial de reserva precisa ser mantido, os corpos precários – ainda empregados – precisam ser adestrados pelo medo da fome.
Desemprego é o ser não-sujeito, MEI que empurra goela abaixo e finca nas costas do precário sujeito Precarizado a venda da ideia de salvação cristã-empreendedora.
Patrão de si mesmo, para fugir das merdas de empregos.
É solução Rappyda, entregar a "Eu Comida", corre-corre a mais de 99, até secar as TETAS da linfa do trabalhador.
A CLT – Consolidação das Lutas dos Trabalhadores – é apagada, tornada heresia.
No lugar, a narrativa ilusória, coachada por coaching-pastores-políticos nos brejos do tecido social esgarçado:
— CLT atravanca o patrão dar emprego!
Aposentadoria?
Coisa de fraco, fracassado, preguiçoso.
E assim, Desemprego segue perpetuando pretéritos desavancos.
Empreendedorismo de necessidade virou a nova religião do desespero.
Pretérito 5°: DeterGente
O braço armado da limpeza social, a burocracia da exclusão.
A hegemonia do higienismo impõe o afastamento sistemático dos indesejados para a vala do social.
O pretérito DeterGente não é só um verbo, é uma política policial.
Operação sufocante para limpar as ruas de tudo que incomoda.
Jatos de água fria contra corpos quentes de quem dorme ao relento.
Fiscalização que multa camelôs, mas fecha os olhos para empresários que lavam dinheiro.
Na cidade, a única sujeira que incomoda o DeterGente enquanto pretérito é a que não dá lucro.
Pretérito 6°: Desaguaceiro
Quando a chuva cai, é sempre mais forte sobre quem tem menos.
São Paulo, cidade que devora seus próprios rios.
O Tietê foi domesticado, o Tamanduateí enclausurado, o Saracura soterrado.
Pretérito Desaguar é o destino dos que moram na beira do córrego, na casa construída onde o poder público nunca chega.
A cada chuva forte, a cidade transborda suas desigualdades.
Quem paga pelo desastre?
Os que perdem tudo?
Ou os que lucram com a especulação imobiliária e condenam os outros a viver nas margens alagadas?
Desaguar nunca é culpa de quem manda, só de quem se afoga.
Obras contra enchentes são "desperdício de dinheiro público".
Piscinões não valem o custo para quem não vive alagado.
E se choveu, a culpa é do céu.
Pretérito 7°: Desassossego
O barulho dos motores, o zumbido das sirenes, os discursos que ninguém mais ouve.
Pretérito Desassossego é poluição sonora que se infiltra nos tímpanos como a fuligem nos pulmões.
São Paulo sufoca no trânsito, no relógio acelerado, no peso de promessas que nunca chegam.
O ruído da cidade não é só feito de motores e sirenes.
É feito de promessas vazias, de apitos de despejo, de gritos abafados de quem protesta.
Desassossego não é só inquietação, é método.
Manter o povo cansado é essencial.
O cansaço é o anestésico da revolta.
Quem luta com fome não sonha.
Quem corre atrás de um prato de comida não faz revolução.
Outros Personagens Dessa De-Sobra
Ou Coadjuvantes desse Pretérito Imperfeito
Os Irmãos-Estados Desespíritos:
- Estressantis
- Ansiosus
- DepriMentes
Os Três Macacos da Deterioração:
- Buzinus (o som que ensurdece)
- Fuligem (a poeira que encobre)
- Anúncios (poluição de promessas não cumpridas)

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