As Fronteiras Invisíveis da Cidade – Um Poema em Movimento
Conteúdo secreto nº 21 de Pior do Que o Tédio: Volume I - Concreto, Poluição e Poesia?
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| Identidade visual do projeto Fronteira Livre, utilizando as cores vermelho, verde e amarelo para representar diversidade e resistência. |
Quando a cidade se torna uma fronteira
A vida urbana esconde muros invisíveis. Barreiras que não se erguem com tijolos, mas que se impõem nos gestos, na burocracia, na falta de escuta. O poema Fronteiras, presente na poesia Fast Fruit do livro Pior do Que o Tédio, nasce desse contexto – um manifesto que reverbera as marcas das desigualdades sociais e da imigração na cidade.
Inspirado na ação Fronteira Livre | Invisible Borders da Goma Oficina, durante a 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, o poema ecoa a luta por reconhecimento, o direito de existir e a resistência dos imigrantes em um espaço que constantemente os empurra para a margem.
Entre bandeiras e versos: Fronteiras que ninguém vê
Na ação artística, frases como “Estamos aqui, nos escutem” foram transformadas em faixas coloridas e instaladas nas estações de metrô da Linha Vermelha de São Paulo. Essas palavras, fruto de oficinas com imigrantes da Bolívia, Peru, Angola, Haiti e Congo, emergiram como um pedido de visibilidade em meio à rotina cinza da cidade.
O poema segue esse mesmo caminho, tensionando o espaço entre a presença e o apagamento, entre a luta e o silêncio. Se na ação Fronteira Livre os imigrantes ocuparam visualmente a cidade, no poema as palavras ocupam a página como cartazes em marcha, repetindo-se como gritos de protesto:
"Estamos aqui, nos escutem!"
"Ter força para continuar."
"Criar coragem para caminhar."
São versos que não pedem licença, que repetem a urgência do discurso, transformando a estrutura do poema em um ato de resistência.
São versos que não pedem licença, que repetem a urgência do discurso, transformando a estrutura do poema em um ato de resistência.
O metrô, a cidade e os muros invisíveis
A cidade de São Paulo é um território de contrastes. Para muitos, a mobilidade é sinônimo de liberdade, mas para os imigrantes, cada deslocamento pode significar um enfrentamento: um olhar torto, uma barreira linguística, uma recusa em um emprego.
Os trilhos do metrô conectam bairros, mas não garantem que todos terão o mesmo direito de pertencimento. É esse espaço de trânsito – a linha que corta a cidade e a vida de milhões – que o projeto Fronteira Livre escolheu para fazer sua intervenção. Ali, entre os cartazes de publicidade, mensagens de resistência surgiram como um respiro, um lembrete de que há histórias sendo apagadas na pressa cotidiana.
O poema Fronteiras leva essa reflexão para o papel, rompendo sua própria estrutura tradicional para se aproximar da oralidade de um protesto. Como na ocupação simbólica dos trens e estações, as palavras reivindicam espaço.
"Viva los inmigrantes del mundo" – grito necessário
Ao final do poema, a voz se une à multidão. A referência à Paulista, avenida símbolo de tantas manifestações, reforça a importância de tornar visíveis as pautas imigratórias. Não se trata apenas de narrar uma experiência, mas de transformá-la em ação.
"Viva los inmigrantes del mundo!" é o fechamento de um poema que não quer ser lido apenas com os olhos, mas sentido com o corpo. Uma frase que ecoa além da página, conectando-se ao movimento da cidade e às histórias que, muitas vezes, insistem em ser silenciadas.
O poema Fronteiras não apenas documenta um projeto artístico – ele prolonga sua existência, mantendo vivo o debate sobre pertencimento, desigualdade e resistência.
"Poema inspirado na ação da Goma Oficina – Fronteira Livre | Invisible Borders | 11ª Bienal de Arquitetura de SP"
Invisível
Sensibilizar
Limite
Romper
Imigrantes estendem, entendem,
a faixa na estação exposta.
TER FORÇA PARA CONTINUAR
TER FORÇA PARA CONTINUAR
TER FORÇA PARA CONTINUAR
Fronteiras da África, retas tortas,
traçadas à régua na mesa de reis da Europa.
Tratado de Tordesilhas fatiando
Abya Yala, trópicos.
Organização
Sonho
Imigrantes estendem, entendem,
a faixa na estação exposta.
DEIXAR O MEDO DE LADO
DEIXAR O MEDO DE LADO
DEIXAR O MEDO DE LADO
Autoridades, escutem,
a faixa na estação exposta.
ESTAMOS AQUI, NOS ESCUTEM
ESTAMOS AQUI, NOS ESCUTEM
ESTAMOS AQUI, NOS ESCUTEM
Desconhecer, entender,
a faixa na estação exposta.
PRECISAMOS CONHECER NOSSOS DIREITOS
PRECISAMOS CONHECER NOSSOS DIREITOS
PRECISAMOS CONHECER NOSSOS DIREITOS
Solidão.
Coragem.
A faixa na estação exposta:
CRIAR CORAGEM PARA CAMINHAR.
CRIAR CORAGEM PARA CAMINHAR.
CRIAR CORAGEM PARA CAMINHAR.
Direitos desconhecidos, longe, isolados.
Pessoas que conhecem direitos, leis, deveres.
Assim, ficam por um pontinho.
Quando o direito desconhecido é reconhecido,
faz parte,
seu ponto de vista passa a existir,
integrar.
Diz a faixa na estação exposta que não consegui ler:
ESPERANÇA
ESPERANÇA
ESPERANÇA
A viva voz da passeata,
na Paulista, em plena avenida,
entende as faixas,
as estações expostas:
VIVA LOS INMIGRANTES DEL MUNDO
VIVA LOS INMIGRANTES DEL MUNDO
VIVA LOS INMIGRANTES DEL MUNDO


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